A princípio, a questão pode parecer apenas um exercício imaginativo. No entanto, quando se suspende momentaneamente a referência ao número cronológico que organiza nossa biografia social — aniversários, documentos, calendários — abre-se um campo que raramente interrogamos: a maneira como cada sujeito se identifica com a própria idade.
A idade cronológica costuma funcionar como um marcador aparentemente objetivo. Ela organiza etapas da vida, delimita expectativas sociais, sugere possibilidades e também limites. Desde cedo aprendemos, muitas vezes de forma implícita, que cada idade corresponde a certos lugares e certas formas de estar no mundo. Uma criança de cinco ou seis anos que insiste em participar de uma conversa entre adultos provavelmente ouvirá algo como: “agora não, isso é conversa de gente grande”. Há assuntos, espaços e decisões que ainda não lhe dizem respeito.
Na adolescência, algo se desloca. O jovem começa a ser convocado a ocupar um lugar que ainda não domina completamente. Perguntas aparentemente simples passam a aparecer com insistência: “o que você vai fazer da vida?”, “qual profissão pretende seguir?”. Trata-se de um momento curioso, pois o sujeito é simultaneamente tratado como alguém que ainda não sabe e, ao mesmo tempo, como alguém que já deveria saber. A idade passa a funcionar como um limite simbólico para a indecisão: chega um momento em que parece não ser mais aceitável permanecer sem respostas.
Na vida adulta, o roteiro social tende a tornar-se ainda mais preciso. Não se trata apenas de trabalhar, mas de adquirir estabilidade, construir uma trajetória coerente, estabelecer vínculos afetivos duradouros, eventualmente constituir uma família. Não é raro que pessoas na casa dos trinta anos relatem uma sensação difusa de atraso quando percebem que suas vidas não correspondem inteiramente ao imaginário social sobre o que deveria acontecer nessa fase.
Com o avanço da idade, novas formas de delimitação aparecem. Uma pessoa que, aos cinquenta ou sessenta anos, manifesta o desejo de iniciar um curso universitário, mudar de profissão ou começar um projeto completamente novo frequentemente se depara com comentários como: “que coragem começar nessa idade” ou “isso já não é mais para a sua idade”.
Mas será que o desejo tem prazo de validade?
Essa pergunta nos aproxima de um fenômeno cada vez mais discutido nas ciências sociais e na psicologia: o etarismo. Em termos gerais, o etarismo refere-se a preconceitos, estereótipos e discriminações baseados na idade. No entanto, há uma dimensão menos visível desse fenômeno, que muitas vezes passa despercebida: quando essas ideias não operam apenas nas atitudes ou julgamentos dirigidos ao outro, mas estão também infiltradas na relação do indivíduo consigo mesmo. É o que tem sido chamado de autoetarismo.
A velhice, em particular, ocupa um lugar delicado nesse imaginário. Não raramente, ela é associada a narrativas de perda: de energia, de relevância social, de autonomia ou de capacidade produtiva. Além disso, “ela” é vista como algo distante: “o velho é o outro”, pensamos, como se dissesse respeito apenas aos avós, aos mestres, àqueles que estão fora de nós. E durante muito tempo, essa alteridade parece relativamente estável. No entanto, chega um momento em que se percebe — às vezes de forma discreta, quase inesperada — que essa realidade também nos concerne. Aquilo que antes parecia pertencer apenas ao outro começa, pouco a pouco, a nos incluir. Proust, no último livro de Em busca do tempo perdido escreve: “De todas as realidades, a velhice é, talvez, aquela que conservamos por mais tempo, apenas uma noção, puramente abstrata”, refletindo que só compreendemos a beleza da vida quando percebemos efetivamente sua transitoriedade. Trata-se de reconhecer que não é um “problema externo”: a velhice é algo que interessa a todos nós, estamos todos implicados nesse processo. Trata-se de reconhecer-se nesse outro, adicionando ao enunciado: “o velho é o outro, o outro sou eu”.
“De todas as realidades, a velhice é, talvez, aquela que conservamos por mais tempo, apenas uma noção, puramente abstrata” (Marcel Proust)
Talvez seja justamente a partir desse reconhecimento que a pergunta que abre esta reflexão possa adquirir todo o seu alcance. Quando percebemos que Saturno está nos devorando, somos convocados a devolver densidade à maneira como habitamos o presente. Se a vida é transitória, se cada etapa é apenas um instante nesse percurso, o que verdadeiramente se coloca não é apenas a questão da idade, mas o modo como cada sujeito se posiciona diante do tempo que lhe cabe viver. Que possamos, portanto, permanecer vivos e desejantes, sem nos deixarmos aprisionar pelas narrativas que insistem em decretar quando algo seria “cedo demais” ou “tarde demais”.
Maria Fernanda Fernandes
Psicóloga (CRP-08/46192)
